ONG Olhar de Bia movimenta mais de 200 toneladas de doações para população vulnerável
Por Suellen Vitoria, João Vitor e Matheus Aguiar
Durante a pandemia de Covid-19, através do projeto Viralize o Bem, 12.500 cestas básicas foram distribuídas, mais de 60 mil pessoas alimentadas, e 120 mil máscaras doadas pela ONG guarulhense na cidade e em toda a grande São Paulo.
A paralisação
da economia devido a pandemia de Covid-19 levou milhares de brasileiros à
miséria. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV),
10,97% da população recebia menos de R$ 246,00 por mês em 2019. Com o pagamento
do auxílio emergencial fornecido pelo Governo Federal, visando ajudar pessoas
em situação vulnerável, esse número caiu para 4,52%. Mas com o fim do benefício,
12,83% da população brasileira vive na pobreza desde fevereiro de 2021.
A situação de
vulnerabilidade em que muitos brasileiros se encontram levou inúmeros projetos
sociais a se mobilizaram. A ONG Olhar de Bia atua há 15 anos na
cidade de Guarulhos, ajudando na educação de crianças e jovens de baixa renda,
formando líderes sociais na parte de gestão, capacitação, contabilidade e
comunicação, e oferecendo apoio a famílias carentes. Durante a pandemia a instituição
movimentou toneladas de doações através do projeto Viralize o Bem:
O olhar de Beatriz Martins, que aos 6 anos de idade foi a grande inspiradora para a criação da ONG, foi surpreendido com o que viu durante este período pandêmico, inclusive, próximo à sede da instituição, localizada no centro de Guarulhos. “Eu vivo o impacto social há 15 anos. Tenho visitado lugares com níveis de miséria que eu nunca tinha visto na vida. Miséria social, emocional, de tudo que vocês podem imaginar. Há 20 minutos da ONG tem pessoas vivendo em condições insalubres, praticamente dentro de córregos”, contou Bia.
Inconformada com a realidade de 120 milhões
de brasileiros na pobreza, notícias ruins viralizando, Beatriz decidiu agir. “Não
adianta falar que não pode dar o peixe, mas ensinar a pescar, sendo que o rio
secou. O Olhar de Bia se encontrou na situação em que pensamos ‘Meu deus! O que
vamos fazer agora? A gente precisa garantir que as famílias estejam vivas para
serem educadas’”, reconheceu Bia. Foi aí que o movimento Viralize o Bem ganhou força,
com a ideia de viralizar coisas boas.
Através do projeto 120 mil máscaras de pano foram
doadas, nos quatro primeiros meses do ano 12.500 cestas básicas distribuídas, e
62 mil pessoas alimentadas em toda a grande São Paulo. O que foi possível
através da rede de 120 ONGs conectadas ao Olhar de Bia na cidade e em outros
Estados, contribuição da iniciativa pública e privada, grandes parceiros como a
Cervejaria Ambev, e pessoas físicas. Tudo isso sem nenhuma ligação religiosa e
partidária. A meta do projeto é alimentar 100 mil pessoas até o final do ano.
Segundo a fundadora da ONG, a cesta básica é
só um caminho, o que faz a diferença é o contato, se importar com as pessoas,
ouvi-las. “Na favela tem depressão, ansiedade, suicídio. O Olhar de Bia
enfrenta desafios muito grandes. Temos trabalhado no combate ao vírus emocional
e social para transformar mais vidas”, afirmou Bia. Com o objetivo de tornar
Guarulhos uma referência de impacto social, e “lapidar diamantes” para
serem transformados e protagonistas de suas próprias histórias, a jovem garante
que novos projetos virão.
O Olhar de Bia está montando o primeiro
hub de inovação social no município, onde ONGs, empresas e a sociedade como um
todo criarão estratégias e soluções em rede para diminuir o nível de
desigualdade e desemprego na cidade. “Não
adianta nada o Olhar de Bia estar no mundo, se Guarulhos não está
fortalecida. Eu brinco que sou Gru Lover.
Queremos fazer da cidade um grande ícone e, replicar nos estados do
Brasil inteiro”, explicou Bia.
A vendedora, Cristiane Santos (42), mora em
Guarulhos e faz parte da estatística do desemprego devido a pandemia – em maio de 2021,
o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atualizou o número de
desempregados no país: 14,8 milhões. Sem
recursos suficientes para se manter, Cristiane recebeu apoio do Olhar de Bia.
“Através da solidariedade, ela me trouxe esperança de dias melhores. Projetos
sociais são importantes. Eles ajudam onde governantes fingem quem que não veem
– a fome, a falta de esperança”, contou.
Segundo o doutor em Ciência Política e
professor da UNIFESP, Javier Amadeo, neste período houve diferenças de atuação
entre os níveis de governo, municipal, estadual e federal. Diversos direitos
foram negados, em especial o direito a saúde e a proteção. Destacou os projetos
sociais como fundamentais no momento de crise sanitária e, consequentemente
social, pois têm programas que garantem a sobrevivência de famílias que
perderam empregos ou fontes de renda, e de setores econômicos de pequeno porte
que também sofreram os efeitos da crise.
O professor também explicou como o negacionismo
do atual governo em relação a ciência prejudicou o povo e violou os direitos
básicos escritos na constituição de 1988. “As iniciativas federais não foram em
consonância às recomendações internacionais, particularmente da Organização
Mundial da Saúde, portanto, contribuíram mediante políticas que negavam as
evidências cientificas e espalhavam informações falsas negando os direitos
anteriormente mencionados”, afirmou Amadeu.
Ele também apontou algumas das diversas causas
da desigualdade social no Brasil, como a herança colonial, o período da
escravidão e a falta de reformas importantes, como a reforma agrária. “Na época
atual, para falar sobre algumas das causas da desigualdade, posso mencionar a
concentração de renda, a falta de educação e saúde pública de melhor qualidade,
o sistema impositivo fortemente regressivo, a enorme informalidade e
precariedade do mercado de trabalho”, concluiu.
Para acabar com a desigualdade social e a miséria, Beatriz Martins resume em duas palavras a solução: atitude e responsabilidade. “Todo mundo quer ajudar, mas nunca começam. Falta colocar a mão na massa. O mundo todo é muita coisa, mas o mundo de alguém você pode ajudar a mudar! ”, ressaltou Bia.
