ONGS e instituições religiosas ajudam dependentes químicos durante pandemia

Com ações sociais, como entrega de alimentos, entidades tentam suprir as necessidades básicas de pessoas marginalizadas, muitas vezes não vistas pela sociedade.

Por: Maria Eduarda Veloso, Thais Nunes, Lucas Henrique da Silva, Raissa Marques e Emanuelly Mateus

Entrega do Certificado do Curso de Elétrica. Foto: Regiane Galha/Instituto Forte

Como comunidade terapêutica, não poderíamos parar. Tudo fechou, mas nós ficamos abertos. O trabalho aumentou, mas graças a Deus, a instituição não se viu prejudicada com a pandemia diz Paulo Andrade, Presidente da ONG Remar no Brasil.

A dependência química é uma doença crônica, e muitas vezes ignorada pela sociedade. Com a pandemia, o consumo de drogas aumentou, e consequentemente, o número de dependentes também, algo que o Estado não consegue dar conta.

Mas para auxilia-los nesse período difícil, algumas ONGs e instituições religiosas realizam ações sociais, como distribuição de marmitas, acolhimento, e tratamento para dependentes químicos e moradores de rua. É caso da ONG Remar Brasil e o Instituto Forte em São Paulo:

ONG Remar Brasil

A Remar foi fundada em 1982, na cidade de Vitória, na Espanha, pelo administrador Miguel Diéz e sua esposa; e ao longo dos anos, se espalhou nos continentes, hoje está em mais de 78 países e segue expandindo. Atuam no Brasil há mais 28 anos, e estão presentes em 5 estados: Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais.

Paulo Andrade que já foi um dependente químico ajudado pela Remar, hoje é Presidente da ONG no Brasil e vê o serviço que prestam como algo essencial para a sociedade, tanto é que não pararam durante a pandemia

“Tudo fechou naquela época, menos nós, nós não fechamos. Aliás nós nos potenciamos e criamos uma visibilidade ainda maior”. – diz Andrade.

Paulo Andrade, Presidente da Remar Brasil. Foto: Lucas Henrique da Silva/UNG

A instituição continuou a sair para as ruas acolhendo os jovens, distribuindo alimentos, e oferecendo tratamento. Se houvesse algum infectado, o levavam para o médico. Algumas Igrejas que trabalham junto à instituição, tiveram que fechar e praticamente recorrer aos serviços deles, porque foram umas das poucos que permaneceram abertos. Segundo Paulo, eles não tiveram problemas com a covid-19:

Ou eu abandonava a instituição ou tomava medidas de segurança, como usar máscara e tal [...] Restrições foram criadas. Medir temperatura, responder questionário, se estiver com algum sintoma fazer teste de covid [...] E acrescentar a possibilidade de que o jovem talvez esteja infectado. De 700 pessoas, nenhum óbito. É um milagre, né? conta.

As pessoas os procuram, ou são convidadas pelo projeto Anjos da Noite, que é uma Busca Ativa pelos dependentes nas áreas de consumo de drogas (cracolândias), onde é oferecida uma internação gratuita por 1 ano. Primeiro, o indivíduo passa pela entrevista de acolhimento, depois vai para a chácara, onde irá a fazer a quarentena e iniciar o processo de desintoxicação. Cada cidade tem sua própria chácara, e Unidade de Desintoxicação, onde é iniciado o tratamento. A unidade de São Paulo, por exemplo, tem sua chácara localizada em Jacareí.

Acervo Remar Brasil

Muitas vezes, eles transferem os dependentes de lugar para se tratarem, isso ocorre porque o jovem pode ter problemas com tráfico, ou familiares. Porque em um lugar diferente, a pessoa se sente menos pressionada, e mais à vontade, assim podendo focar na desintoxicação, mas não é obrigatório. Algumas famílias não gostam da ideia, e assim o dependente corre o risco de abandono prematuro do tratamento. Mas caso aconteça, eles o aceitam de volta. Porém ele irá para outra unidade em outro Estado, reiniciando o procedimento.

É muito difícil, qualquer pessoa que esteja dominada por um vício, vencer sozinho. É preciso uma ajuda, um psicólogo, um terapeuta, um lugar para apropriado para tratar esse tipo de vicio. Nós temos tudo isso aqui. Não só os técnicos, mas infraestrutura. Com espiritualidade e o trabalho”.- completa Paulo.

Esses dois últimos são os pilares do tratamento da Remar Brasil. Eles acreditam na terapia ocupacional, que mantendo a pessoa ocupada e com apoio espiritual, pois são cristãos, ela poderá vencer o vício.

Instituto Forte

A psicóloga Keyla Reis Silva de Siqueira atuou ao longo de 6 anos como voluntária, atendendo dependentes químicos no Instituto Forte e hoje faz parte da gestão do projeto. Ela explica que a maioria começa nas drogas por curiosidade:

Ouvimos muitas histórias de pessoas que se tornaram dependentes porque um dia tiveram a curiosidade de experimentar na escola, os amigos estavam lá usando, ela acabou experimentando e nunca mais conseguiu se desvincular das drogas”explica.

O instituto começou com um projeto que nasceu no coração do Pastor Márcio Ávila, da Igreja Bola de Neve em Guarulhos. Inicialmente, eles entregavam alimentos para pessoas em situação de rua, porém observaram que aquilo não era o suficiente:

Precisava de algo a mais, então nasceu o desejo de poder acolher essas pessoas de forma integral, oferecendo um tratamento de fato, onde elas pudessem ser acompanhadas e reinseridas na sociedade de uma forma mais digna com trabalho, moradia e com suas vidas transformadas - conta Keyla.

Antes da pandemia, separavam e vendiam material reciclado, atividade feita pelos próprios acolhidos, lhes servindo como uma atividade laboral. Com isso, mantinham as despesas do projeto, a qual 50% da renda era através desse trabalho e não conseguiram dar continuidade.

Também houve uma queda significativa dos doadores, até cogitaram fechar pela falta de recursos. Quando tiveram a ideia da Feira Forte, onde entregam á domicilio de combos de frutas, legumes, verduras. O que gerou um bom retorno, devido a quarentena e o isolamento social.

O projeto acolhe homens em situação de rua, com problemas com drogas, de 18 a 59 anos. Eles são convidados para ficar 10 meses, até 1 ano no instituto. Nesse período, fazem acompanhamento com psicólogos, assistentes sociais, pessoas da área da saúde, advogados e voluntários. Além das aulas de preparação para o mercado de trabalho; e o devocional, com atividades na Igreja, onde é trabalhada a questão espiritual.

Oficina de Panificação. Foto: Anderson Viana/Instituto Forte

 O intuito é ressocializar essas pessoas para que elas saiam com uma vida mais digna, com moradia e emprego. Todos que concluem o tratamento só são desligados da casa quando arrumam um emprego e conquistam uma moradia, eles não saem sem essas questões resolvidas”.

Keyla também destaca a importância de projetos como esses para sociedade:

Muitas vidas não teriam oportunidade se não fossem projetos como esse; que acolhem, que olham nos olhos, que conversam, dão voz, que valorizam as pessoas. Para alguém que tem necessidade física, emocional ou espiritual, são importantes projetos que acolham as pessoas, entendendo que cada um tem sua particularidade, e isso precisa ser respeitado. A gente pode ser uma rede de apoio, um suporte, talvez a mão estendida para que aquela pessoa tenha uma nova visão de vida, dos desafios da sua história para sair daquela condição e viver algo novo, uma história nova, um sonho novo - finaliza.