Por Edilaine Tenório, Yasmim Abbud, João Paulo Silvino, Daniele Simões, Jhonatan Santos
Projeto
Absorver e Projeto Sol em distribuição de kits de higiene intima
(Imagem
retirada do Instagram)
Atualmente,
cerca de 713 mil pessoas vivem sem acesso à banheiro ou chuveiro dentro de casa
e mais de 4 milhões não possui alcance à itens mínimos de cuidados menstruais
nas escolas, segundo dados do estudo “Pobreza
Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos”,
publicado pelo site da UNICEF. A partir disso, 5 amigas (Ariane Capise, Karina
Dalpiai, Victoria Santos, Mirela Cavichioli e Carolina Vesentini) criaram o Projeto
Absorver, em março de 2021, para ajudar pessoas que menstruam
e vivem em condições precárias, em São Paulo e Rio de Janeiro.
O grupo participava de outros projetos de ajuda à pessoas em
situação de rua e vulnerabilidade social e em uma das ações, uma delas
questionou as pessoas assistidas como elas lidavam com o período menstrual. As
respostas eram: utilizavam miolo de pão, rasgavam as roupas doadas, pedaços de
papelão ou apenas não usavam nada e ficavam sentadas até a menstruação passar.
Após ouvirem os depoimentos, Mirela e Victoria usaram as redes sociais para
promover uma ação de arrecadação de absorventes, que seria o primeiro passo
para o surgimento do projeto.
Desde a primeira ação até hoje, o projeto já conta com diversos
parceiros e conseguiu expandir a ajuda para, além de São Paulo, Itaquaquecetuba
e Rio de Janeiro. Além das 5 fundadoras, há um total de 55 voluntários, “temos
um grupo no Whatsapp onde promovemos debates e discussões sobre dignidade e
pobreza menstrual [...], tem sido uma experiência bem bacana”, contou Victoria
Santos, a responsável pela parte de comunicação do programa.
Projeto
absorver em ação realizada em comunidade
(Foto disponibilizada pelas
fundadoras)
Além das entregas de kits, uma vez por mês também promovem uma ação
educativa em parceria com uma ginecologista, “as médicas nos ajudam com a produção de
conteúdos mais técnicos e também participam com a gente das ações nas
comunidades, [...] fazemos efetivamente uma roda de conversa, falamos sobre
sexualidade, ciclo menstrual, a importância da higiene menstrual. [...] É um
momento, realmente, para que as pessoas dessa comunidade possam conversar,
tirar suas dúvidas e entender muito mais sobre a menstruação”, compartilhou
Victoria.
Uma
das ginecologistas parceira no projeto, Dra.Amanda
Loretti, afirmou que a falta de informação sobre o tema para pessoas de
classes sociais mais baixas ainda é muito grande, “No primeiro encontro
de roda para conversarmos sobre menstruação, levamos um coletor menstrual
porque estávamos avaliando se seria seguro trabalharmos com distribuição deles,
[...] e quando eu expliquei e mostrei, a grande maioria das mulheres (de 12 a
60 anos) não sabia o que era e nunca tinha ouvido falar de coletor menstrual.
[...] É preciso falar sobre isso para que esses assuntos se naturalizem e mais
pessoas tenham acesso a informações de qualidade.”
A médica ainda conta como a ajuda de ONGs é importante e auxiliam pessoas que vivem nessa situação:
“Quando falamos de pobreza menstrual, estamos
falando de situações emergenciais onde essas pessoas estão, mês a mês, ciclo a
ciclo, se expondo a riscos que podem ter consequências graves à saúde. Portanto,
qualquer ajuda mesmo que provisória com doação de produtos faz muita diferença.
É claro que o ideal seria uma resolução desse problema por parte do governo,
com programas que fornecessem, gratuitamente, produtos menstruais, além de
banheiros públicos limpos para pessoas em condição de rua e melhores condições
de saneamento básico em todos os bairros, mas enquanto não temos essas melhorias
mais amplas, o acesso, hoje, dessas pessoas à absorventes seguros é essencial e
faz muita diferença na vivência da menstruação.”
Há um mês, o projeto realizou a primeira ação independente,
onde fazem a entrega dos kits sem depender de ações de ONGs parceiras, “estamos
estruturando a próxima (ação independente) para que os voluntários comecem
a ter essa experiência de entrega com a gente. [...] Tem sido uma experiência
bem legal para que a gente fale mais sobre o tema e naturalize, e que a gente
possa lutar por algo, [...], além de trazer a dignidade menstrual, a gente
também traz conscientização acerca dessa causa”, afirmou Victoria.